Monthly Archives: maio 2009

Gente com poder

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Ontem fui à casa de amigos. Segunda vez para jantar.

Cinco minutos antes de a mesa ser anunciada, a anfitriã falou para todos algo assim: “Garantam-se com os aperitivos porque o Giovanni não gosta da minha comida”.

Nossa! E o que eu estava fazendo ali? Realmente eu não houvera escondido minha opinião sobre o macarrão da primeira vez, mas estávamos lá para passar umas horas de um sábado frio e chuvoso em um encontro despretensioso. Meio família.

Bem, a aparência do prato principal estava ótima. O arroz do jeito que eu gosto. A salada linda. Baby carrot, baby tomato…

Foi muito bom dizer que o mignon com shitake estava perfeito. Comi devagarinho, com prazer.

Depois de anos de cumplicidade e códigos, a Márcia sabe, embora nem precise disso, que, se eu coloco catchup na pizza, é para criticar sem palavras a redonda. Ela sabe que, quando eu elogio um arroz com pera e gorgonzola, a mesma frase pode significar que o pretenso risoto está muito ruim, sem contradição, sem falsidade, mas com um implícito: risoto é uma coisa, arroz com algo é outra. Afinal, mesmo que possam nos dar prazer, não vamos chamar “arroz com bife” de “risoto de bife”, tampouco “pizza com catchup” de “pizza”.

Vou ser claro e conclusivo: ontem a batata chips não teve lugar em meu prato.

Mas este post não é para falar de comida. É para declarar como eu gosto de ver gente que tem o poder de dominar seu espaço, que segue em frente, que não precisa, não quer e não deve se identificar com um macarrão bobinho que tenha preparado.

Dicas do Chef Fernando Fernandes

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“Nada pior do que um legume que passou do ponto.”

O que fazer se um legume passa do ponto? “Descer no próximo ponto”, recomenda o chef.

Uma discussão gastronômica inconclusa: um legume “al dente” se compara mais a uma ejaculação precoce ou a um coito interrompido? Independentemente da resposta, sabe-se que ambos saem do quentinho antes da hora.

Caçadores buscam beija-flor raro para comer seu coração

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Está em

http://www.globoamazonia.com/Amazonia/0,,MUL1175442-16052,00-CACADORES+BUSCAM+BEIJAFLOR+RARO+PARA+COMER+SEU+CORACAO.html.

“A caça é para comer o coração do mirabilis – onde, segundo uma lenda, há propriedades afrodisíacas.”

Matar beija-flor para ter mais prazer sexual é doentio.

Espero, pelo menos, que a lenda seja mais que uma lenda: o caçador vai preso e na cadeia alguém fode com ele. 

(Tenho que parar de ver o Carlos Prates no JA.)

Norma culta 2 (Doutor, desculpe-me por estar doente!)

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Estive num encontro em que se falou mais uma vez em norma culta, gramática padrão e coisas assim. Os discursos me embaralhavam devido aos usos livres de “pode”, “deve”, “precisa”, “tem de”, “liberdade”, “direito de”…

Eu não sei como há tanta falta de desconfiômetro. Todas as apresentações por escrito e faladas tinham desvios da norma culta. Escutei o gerundismo (vou estar apresentando), escutei estrangeirismo não aceito pelos tradicionais (frente a) e li vários registros escritos com erro antes e depois do acordo ortográfico (auto-conhecimento, bilingualismo, “erros” de concordância, de regência, muitos de pontuação…), incluindo o título do evento, um Mesa Redonda sem hífen (não quero dizer em que centro acadêmico era).

As perguntas são: os discursos do dia perderam valor por corromper a norma culta? As pessoas que os enunciaram valem menos porque não a dominam perfeitamente? 

Eu defendo os que estavam lá. São professores, estudiosos, trabalhando. Aos meus olhos não se apequenaram por seus “errinhos insignificantes” de português, mas há os que diriam, senso comum: “Como pode?????? Que vergonha!!!!!!! Pensa que sabe!!!! Que feio!!!!!” Como passou no concurso???. Felizmente eu não estou contaminado por isso. Eu incorporei de verdade as ideias das primeiras aulas em Letras que destruíam o cruel “certo e errado” na produção da língua. Eu sempre digo aos meus clientes quando se desculpam: não te sintas mal com tua falta de domínio quanto aos usos clássicos da língua. Um dermatologista não se enoja com uma pele doente. Um virologista olha a Aids como um objeto de estudo, de trabalho. Um engenheiro olha as rachaduras de um prédio e se sente desafiado a corrigi-las, assim como um paisagista mirando um jardim sem flores. Por que então eu, professor de português, iria sentir repulsa pela tua variedade linguística? Cabe a mim atuar, e não condenar. Aliás, eu e somente eu posso ser criticado por não dominar a norma, e isso só quando estou trabalhando. Estás liberado!

Entretanto, para alguns que têm como objeto de estudo a gramática (pior ainda quando são de outras áreas e metidos a entendidos), sua própria posição teórica e seus preconceitos são um tiro no pé. Valem-se apenas de estar acima da média, mas não se sustentam a uma avaliação de quem poderia corrigi-los, expô-los.

Por isso eu discordo dessa tolice de exigir (opa, outro verbo despejado no encontro) a norma culta. Já com alguma estrada de vida, eu não preciso de nenhum profissional que a domine. Talvez, os que mais deveriam dominar são os âncoras e jornalistas, talvez alguns advogados, para não decepcionar o juiz, quando a forma é tão ou mais importante que o conteúdo (“Olha, o réu é corrupto, prevaricador, mas vosso português é insuficiente para condená-lo. É a minha decisão”).

O resto dos profissionais pode apenas se comunicar bem, fazer bons projetos, boas cirurgias, boas paredes. A norma culta não interessa para 99% do planeta, mas é usada por uns poucos como forma de se sentir superior.

Eu até poderia fazer isso, tripudiar, mas faço exatamente o contrário. Fico de olho nos arrogantes da gramática tradicional como instrumento de humilhação e, à primeira oportunidade, reviso alguma coisinha da fala deles, para mostrar que ninguém é perfeito. Não preciso de mais de três orações do babaca para sacanear e, contra os meus princípios, corrigir o cara em público.

Espero que a leitura deste post seja compreendida como uma defesa da liberdade de expressão, contra o preconceito, contra a discriminação. Que os seres falantes se preocupem com o conteúdo, com a comunicação, e não com um punhado de normas. 

Para um bom revisor, a aplicação dessas normas gramaticais é menos de 10% do esforço, é praticamente automático. Já ajudar para que os discursos tornem-se melhores exige alguma habilidade e dedicação.

Receita de arroz da A

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Num fogão, numa panela em cima de uma boca acesa, colocar arroz e uma quantidade de água insuficiente, ou seja, pouca água e bastante arroz.

Quando notar que acabou a água e que o arroz não ficou bom, colocar mais água.

(Se não colocou sal na primeira etapa, agora é a hora.)

Desligar o fogo assim que a segunda água tiver desaparecido (não escrevi “evaporado” porque parte dela deve ficar “dentro” do arroz.

Servir quente. Se demorar para ir à mesa, servir frio.

Norma culta

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Desde hoje defendo que a norma culta seja tratada em disciplina optativa ou extracurricular em todos os níveis de ensino.

Na minha relação profissional, nem eu nem meus clientes pensam nela durante a tarefa de melhorar o texto. 

Se a conheço, uso como um instrumentinho de apoio para deixar o texto fluido, sem estranhamentos. Daí corrompê-la quando necessário.

Para que dar poder à norma culta? Não é mais simples enfraquecê-la e deixar todos mais felizes? Só podemos desprezá-la se os primeiros passos forem daqueles que a tratam como profissionais. De prepotentes utilizando-a como elemento discriminador está cheio por aí.

Que tal apenas trabalhar a qualidade dos textos, coisa que se pode fazer sem compromisso com algumas regrinhas arcaicas.

Se eu fosse ver tudo sob o prisma da norma, passaria a vida anotando os desvios de todos, todos mesmo, ao meu redor, incluindo-me.

Adeus, Norma Culta. Que te compre, no mercado negro, quem te usa para oprimir.

Vai trabalhar, vagabundo!

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Voltei a pedalar em algumas manhãs e hoje me lembrei dos motoristas e caronas de caminhão que passavam por mim quando eu treinava, entre meus 14 e 18 anos, e gritavam: “Vai trabalhar, vagabundo”.

Hoje ajudo a manter o emprego desses caras sempre que compro material de construção, peças pesadas, itens pela internet com o dinheiro que ganho com revisão.

Pena que nenhum deles apareceu com um livro para eu revisar. Vão escrever, preguiçosos.

(É, além de saber que parece texto do Prates – tem coisa pior que isso? -, eu tenho consciência do viés desta croniqueta.)

Chuva representativa

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Nosso repórter do tempo falou hoje, no JA, em “chuva representativa” em algumas cidades do oeste catarinense.

Representativa do quê? Quis dizer ele chuva significativa, significante?

Está (quase) comprovado!

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Tintura no cabelo destroi os neurônios. Aqui do lado, algumas frequentadoras de salão costumam estacionar obstruindo as garagens e as esquinas. A hipótese de que seja de propósito foi descartada. Ainda poderia ser um egocentrismo absurdo, mas não foi registrado nenhum caso de homem ou mulher egocêntricos que não pintam o cabelo. Tudo indica, portanto, que seja inteligência diminuída por efeito químico mesmo.

Faremos mais observações e controlaremos outras variáveis.

Um estudo de caso em andamento que não corrobora com esta tese é o do motorista com carteira suspensa por 130 pontos, deputado estadual do Paraná, onde não há hospital. Ele, egocêntrico e narcisista a ponto de pintar o cabelo, não obstrui o trânsito: passa por cima!

Ou talvez corrobore: ao receber o aviso de suspensão da carteira do Detran, pode ter entendido que “130″ era a velocidade mínima em que deveria transitar como jovem deputado.

Esclarecimento sobre o Novo Acordo Ortográfico

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Alertou-me um filósofo que “diarreia” não perdeu o assento… o do bacio.

Plateias também merecem assento, complementou um dos meus namorados, quase um incesto (pedi parabéns no Dia das Mães).