Estive num encontro em que se falou mais uma vez em norma culta, gramática padrão e coisas assim. Os discursos me embaralhavam devido aos usos livres de “pode”, “deve”, “precisa”, “tem de”, “liberdade”, “direito de”…
Eu não sei como há tanta falta de desconfiômetro. Todas as apresentações por escrito e faladas tinham desvios da norma culta. Escutei o gerundismo (vou estar apresentando), escutei estrangeirismo não aceito pelos tradicionais (frente a) e li vários registros escritos com erro antes e depois do acordo ortográfico (auto-conhecimento, bilingualismo, “erros” de concordância, de regência, muitos de pontuação…), incluindo o título do evento, um Mesa Redonda sem hífen (não quero dizer em que centro acadêmico era).
As perguntas são: os discursos do dia perderam valor por corromper a norma culta? As pessoas que os enunciaram valem menos porque não a dominam perfeitamente?
Eu defendo os que estavam lá. São professores, estudiosos, trabalhando. Aos meus olhos não se apequenaram por seus “errinhos insignificantes” de português, mas há os que diriam, senso comum: “Como pode?????? Que vergonha!!!!!!! Pensa que sabe!!!! Que feio!!!!!” Como passou no concurso???. Felizmente eu não estou contaminado por isso. Eu incorporei de verdade as ideias das primeiras aulas em Letras que destruíam o cruel “certo e errado” na produção da língua. Eu sempre digo aos meus clientes quando se desculpam: não te sintas mal com tua falta de domínio quanto aos usos clássicos da língua. Um dermatologista não se enoja com uma pele doente. Um virologista olha a Aids como um objeto de estudo, de trabalho. Um engenheiro olha as rachaduras de um prédio e se sente desafiado a corrigi-las, assim como um paisagista mirando um jardim sem flores. Por que então eu, professor de português, iria sentir repulsa pela tua variedade linguística? Cabe a mim atuar, e não condenar. Aliás, eu e somente eu posso ser criticado por não dominar a norma, e isso só quando estou trabalhando. Estás liberado!
Entretanto, para alguns que têm como objeto de estudo a gramática (pior ainda quando são de outras áreas e metidos a entendidos), sua própria posição teórica e seus preconceitos são um tiro no pé. Valem-se apenas de estar acima da média, mas não se sustentam a uma avaliação de quem poderia corrigi-los, expô-los.
Por isso eu discordo dessa tolice de exigir (opa, outro verbo despejado no encontro) a norma culta. Já com alguma estrada de vida, eu não preciso de nenhum profissional que a domine. Talvez, os que mais deveriam dominar são os âncoras e jornalistas, talvez alguns advogados, para não decepcionar o juiz, quando a forma é tão ou mais importante que o conteúdo (“Olha, o réu é corrupto, prevaricador, mas vosso português é insuficiente para condená-lo. É a minha decisão”).
O resto dos profissionais pode apenas se comunicar bem, fazer bons projetos, boas cirurgias, boas paredes. A norma culta não interessa para 99% do planeta, mas é usada por uns poucos como forma de se sentir superior.
Eu até poderia fazer isso, tripudiar, mas faço exatamente o contrário. Fico de olho nos arrogantes da gramática tradicional como instrumento de humilhação e, à primeira oportunidade, reviso alguma coisinha da fala deles, para mostrar que ninguém é perfeito. Não preciso de mais de três orações do babaca para sacanear e, contra os meus princípios, corrigir o cara em público.
Espero que a leitura deste post seja compreendida como uma defesa da liberdade de expressão, contra o preconceito, contra a discriminação. Que os seres falantes se preocupem com o conteúdo, com a comunicação, e não com um punhado de normas.
Para um bom revisor, a aplicação dessas normas gramaticais é menos de 10% do esforço, é praticamente automático. Já ajudar para que os discursos tornem-se melhores exige alguma habilidade e dedicação.