Monthly Archives: setembro 2009

Sexo e gênero, gênero e sexo

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Eis uma opinião apriorística. Há muitos anos venho revisando trabalhos que tratam das questões de gênero. Gosto muito, aprendo muito, vejo e revejo a sociedade sob a perspectiva de sociólogos, psicólogos, antropologistas, feministas, educadores e outros.

Mas agora acho que a coisa desandou. Incluir “gênero” no discurso virou moda e, no meu entendimento, muitos estão pensando que não existe mais (ou não deve existir, por ser politicamente incorreta) a classificação sexo.

Daí leio análises estatísticas como “Quanto ao gênero, o congresso é composto de 23% de mulheres e de 77% de homens”.

Nesse contexto, troco sempre por “sexo”. Falar de gênero seria algo posterior a isso, como “Observa-se, a partir desses números, que os homens ainda dominam na política pública”. Isso sim, para mim, é começar a tratar de gênero.

Portanto, dividir uma sala de aula em homens e mulheres para uma contagem não é dividir em gênero. É dividir em sexo.

Será que o Censo 2010 vai bater à minha porta e me perguntar qual o meu gênero? Aposto que sim. É moda intelectualoide.

Vou responder “neutro”, assim como “bege” para a minha cor.

Eu noveleiro

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Stefânio Garcia estava Carga Pesada em Caminho das Índias, assim como Daniela Suzuki está Malhação em Viver a Vida.

Revisão, revisão e algo mais

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Texto original

“Há um grande debate entre o uso padrão do idioma com todas as suas regras e, por outro lado,o uso coloquial e espontâneo. Sabe-se que um profissional com bom domínio de nossa gramática e bom vocabulário é quase sempre mais bem visto profissionalmente do que aquele que não domina tais conhecimentos. De forma geral, qual é a sua opinião sobre o idioma formal e informal de nosso idioma.”

Numa primeira leitura, tudo o que me chamou a atenção nesse enunciado está destacado com cores:

Há um grande debate entre o uso padrão do idioma com todas as suas regras e, por outro lado,o uso coloquial e espontâneo. Sabe-se que um profissional com bom domínio de nossa gramática e bom vocabulário é quase sempre mais bem visto profissionalmente do que aquele que não domina tais conhecimentos. De forma geral, qual é a sua opinião sobre o idioma formal e informal de nosso idioma.

Em vermelho, dois erros inquestionáveis: falta de espaço depois da vírgula e de ponto de interrogação na pergunta.

Em azul, há tanto problemas evidentes quanto discutíveis. Vamos apresentá-los.

1) “debate entre” normalmente seria entre duas pessoas, não entre temas. Preferível a regência “sobre”, mas isso exigiria acrescentar a oposição entre uso padrão e uso coloquial. Deixemos uma solução para mais tarde.

2) “entre” requer apenas um “e”, e não “por outro lado”. Não faz sentido essa redundância. Solução: deletar por outro lado.

3) “uso padrão do idioma com todas as suas regras” parece ser outra redundância. Se é uso padrão, tem de ser com as regras. Uma solução simples, para não suprimir texto, seria acrescentar uma vírgula: “uso padrão do idioma, com todas as suas regras”.

4) “coloquial e espontâneo”. O autor pode até argumentar que quer ser didático, mas se é coloquial é espontâneo. Solução? Ou uma vírgula, ou apenas coloquial, que é o termo mais adequado ao assunto, em oposição a formal. Aliás, alguém pode ser tão erudito que o formal torna-se espontâneo.

5) “profissional” e “profissionalmente” na mesma frase. É necessário? Nossa língua culta mais a riqueza vocabular aceitam isso? Proporei alguma coisa depois.

6) “bom domínio” e “bom vocabulário” também parece pobre. Vamos ver.

7) “de nossa”, “a sua”, “de nosso”. Podemos flutuar entre “sua” e “a sua” num mesmo texto? É opcional sim, mas num texto formal podemos alternar entre uma e outra forma? Não.

8) dominar “tais conhecimentos” faz-me perguntar quais seriam esses supostos tais conhecimentos citados. É claro que sei que o autor quer referir-se a “nossa gramática” (qual delas?) e “nosso vocabulário”. Gramática e vocabulário podem ser chamados de “conhecimentos”? O domínio deles pode ser chamado de conhecimentos? Domina-se vocabulário? Essas são perguntas que eu, como revisor, me faço.

9) “o idioma formal e informal de nosso idioma” foi escrito sem atenção, sem revisão.

Considero que um profissional revisor não precisa resolver todos esses problemas que apontei, tampouco se limitar a eles. Há um mínimo inquestionável de emendas e um máximo que extrapola as funções típicas de revisor. Alguém poderia sugerir 15, 20 alterações, a ponto de construir um texto novo. Nesse caso, trata-se de copidesque. Definir limites de ação do revisor, portanto, é complicado. Insisto, de qualquer forma, que um mínimo é obrigação de um bom profissional.

Finalmente, apenas uma entre as soluções possíveis para o texto, em parte exagerada:

Há um grande debate sobre a exigência do uso padrão de um idioma, com todas as suas regras, e, por outro lado, sobre as implicações do uso coloquial. Sabe-se que um indivíduo com bom domínio da gramática e com um vocabulário rico é quase sempre mais bem visto do que aquele que não tem essas qualidades. Em linhas gerais, qual é a sua opinião a respeito dos registros formal e informal do nosso idioma?

Quando eu era cientista

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Li um trabalho sobre venda, compra e aluguel de imóveis em favelas.

Alguns autores mostram-se surpresos por a violência não ser citada como problema na comunidade ou como causa da venda.

Nenhum desses autores explicitou que é (muito) provável que o vendedor não queira desvalorizar seu imóvel depreciando o entorno. Incrível. 

Alguém imagina um proprietário de uma casa à venda num bairro de classe média, ou mesmo um corretor, informando ao potencial comprador que o motivo da venda é o bairro estar muito violento, com vários assaltos a residências à mão armada?

Por acaso o pessoal da favela seria bobo a esse ponto? Não seria preconceito?

Na minha época de pesquisador, um resultado desses não seria publicado sem a ressalva a esse possível viés, mesmo que no instrumento de pesquisa eu tentasse deixar o entrevistado bem seguro de que as informações não teriam efeito negativo sobre o preço de venda da casa dele.

Revisor-dentista

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Tem cliente que aparece aqui desdentado, com alguns abscessos, uns canais a tratar, com poucos tecidos sadios, enfim, uma boca podre.

Revisor é como ortodentista. Para ajeitar a posição dos dentes, pelo menos é necessário um ambiente minimamente funcional.