Através

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Já passou o tempo em que eu seguia as gramáticas que pregam que “através” deve ser empregado apenas em contextos restritos (através da janela, através dos tempos…). Embora eu ainda troque a maioria dos “através” por “por”, “por meio de”, “por intermédio de”, “com”, “mediante”, “a partir de” e outros termos, sempre na busca do melhor sentido de forma elegante, um ou outro “através” nesses mesmos contextos são preservados.

Em outras palavras, não vejo problema em um “através” ser escrito em um contexto em que “por meio de” seria perfeito. Há várias outras palavras na língua usadas “impropriamente”. Por que só o “através” deveria ser condenado?

Em outro momento postarei algumas de minhas substituições de “através” em revisões que fiz nos últimos anos.

Hífenes

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Recebi um material que tratava de cargos e funções.

Uma crítica que faço sempre a obras que trazem normas com exemplos é que os autores não se preocupam em facilitar a vida dos interessados apresentando exemplos diferentes. A norma de referências da ABNT é um desses documentos que me irritam. De vez em quando um cliente meu aparece com uma referência com p. 08 (e não p. 8). Na primeira vez que vi isso, voltei à Norma e, por mais incrível que pareça (para não chamar os autores de limitados), todas as ocorrências de número de páginas (são várias) começam com duas ou mais casas decimais. Portanto, não pensaram em deixar implícito um exemplinho de numeração abaixo de 10. Faltou perspicácia ou não?

Nos exemplos de compostos indicadores de cargos do material recebido esta semana, ocorre a mesma coisa: uma dezena de exemplos iguaizinhos. Se são exatamente iguais, para que mais de dois ou três?

Em contrapartida, não se aproveitou o espaço para ensinar ou garantir para nós, aprendizes, como ficaria um cargo com três ou mais palavras.

Então, pergunto o que pode ser óbvio: se é diretor-financeiro, é também o certo diretor-administrativo-financeiro?

Vinhos até 20

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Aromo Reserva Privada, chileno, Cabernet ou Carmenère, 16 no Big, comprando 3 garrafas.

Lavaque Edição Limitada, argentino, Pinot, Cabernet, Malbec, 10 no Big, também na compra de 3 garrafas.

Gamela Reserva, chileno, Malbec, 18 no Big.

Miolo Seleção, Cabernet/Merlot, 13 na Santa Adega.

Fortaleza do Seival, Pinot, Tannat, 20 na Santa Adega.

Sexo e gênero, gênero e sexo

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Eis uma opinião apriorística. Há muitos anos venho revisando trabalhos que tratam das questões de gênero. Gosto muito, aprendo muito, vejo e revejo a sociedade sob a perspectiva de sociólogos, psicólogos, antropologistas, feministas, educadores e outros.

Mas agora acho que a coisa desandou. Incluir “gênero” no discurso virou moda e, no meu entendimento, muitos estão pensando que não existe mais (ou não deve existir, por ser politicamente incorreta) a classificação sexo.

Daí leio análises estatísticas como “Quanto ao gênero, o congresso é composto de 23% de mulheres e de 77% de homens”.

Nesse contexto, troco sempre por “sexo”. Falar de gênero seria algo posterior a isso, como “Observa-se, a partir desses números, que os homens ainda dominam na política pública”. Isso sim, para mim, é começar a tratar de gênero.

Portanto, dividir uma sala de aula em homens e mulheres para uma contagem não é dividir em gênero. É dividir em sexo.

Será que o Censo 2010 vai bater à minha porta e me perguntar qual o meu gênero? Aposto que sim. É moda intelectualoide.

Vou responder “neutro”, assim como “bege” para a minha cor.

Eu noveleiro

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Stefânio Garcia estava Carga Pesada em Caminho das Índias, assim como Daniela Suzuki está Malhação em Viver a Vida.

Revisão, revisão e algo mais

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Texto original

“Há um grande debate entre o uso padrão do idioma com todas as suas regras e, por outro lado,o uso coloquial e espontâneo. Sabe-se que um profissional com bom domínio de nossa gramática e bom vocabulário é quase sempre mais bem visto profissionalmente do que aquele que não domina tais conhecimentos. De forma geral, qual é a sua opinião sobre o idioma formal e informal de nosso idioma.”

Numa primeira leitura, tudo o que me chamou a atenção nesse enunciado está destacado com cores:

Há um grande debate entre o uso padrão do idioma com todas as suas regras e, por outro lado,o uso coloquial e espontâneo. Sabe-se que um profissional com bom domínio de nossa gramática e bom vocabulário é quase sempre mais bem visto profissionalmente do que aquele que não domina tais conhecimentos. De forma geral, qual é a sua opinião sobre o idioma formal e informal de nosso idioma.

Em vermelho, dois erros inquestionáveis: falta de espaço depois da vírgula e de ponto de interrogação na pergunta.

Em azul, há tanto problemas evidentes quanto discutíveis. Vamos apresentá-los.

1) “debate entre” normalmente seria entre duas pessoas, não entre temas. Preferível a regência “sobre”, mas isso exigiria acrescentar a oposição entre uso padrão e uso coloquial. Deixemos uma solução para mais tarde.

2) “entre” requer apenas um “e”, e não “por outro lado”. Não faz sentido essa redundância. Solução: deletar por outro lado.

3) “uso padrão do idioma com todas as suas regras” parece ser outra redundância. Se é uso padrão, tem de ser com as regras. Uma solução simples, para não suprimir texto, seria acrescentar uma vírgula: “uso padrão do idioma, com todas as suas regras”.

4) “coloquial e espontâneo”. O autor pode até argumentar que quer ser didático, mas se é coloquial é espontâneo. Solução? Ou uma vírgula, ou apenas coloquial, que é o termo mais adequado ao assunto, em oposição a formal. Aliás, alguém pode ser tão erudito que o formal torna-se espontâneo.

5) “profissional” e “profissionalmente” na mesma frase. É necessário? Nossa língua culta mais a riqueza vocabular aceitam isso? Proporei alguma coisa depois.

6) “bom domínio” e “bom vocabulário” também parece pobre. Vamos ver.

7) “de nossa”, “a sua”, “de nosso”. Podemos flutuar entre “sua” e “a sua” num mesmo texto? É opcional sim, mas num texto formal podemos alternar entre uma e outra forma? Não.

8) dominar “tais conhecimentos” faz-me perguntar quais seriam esses supostos tais conhecimentos citados. É claro que sei que o autor quer referir-se a “nossa gramática” (qual delas?) e “nosso vocabulário”. Gramática e vocabulário podem ser chamados de “conhecimentos”? O domínio deles pode ser chamado de conhecimentos? Domina-se vocabulário? Essas são perguntas que eu, como revisor, me faço.

9) “o idioma formal e informal de nosso idioma” foi escrito sem atenção, sem revisão.

Considero que um profissional revisor não precisa resolver todos esses problemas que apontei, tampouco se limitar a eles. Há um mínimo inquestionável de emendas e um máximo que extrapola as funções típicas de revisor. Alguém poderia sugerir 15, 20 alterações, a ponto de construir um texto novo. Nesse caso, trata-se de copidesque. Definir limites de ação do revisor, portanto, é complicado. Insisto, de qualquer forma, que um mínimo é obrigação de um bom profissional.

Finalmente, apenas uma entre as soluções possíveis para o texto, em parte exagerada:

Há um grande debate sobre a exigência do uso padrão de um idioma, com todas as suas regras, e, por outro lado, sobre as implicações do uso coloquial. Sabe-se que um indivíduo com bom domínio da gramática e com um vocabulário rico é quase sempre mais bem visto do que aquele que não tem essas qualidades. Em linhas gerais, qual é a sua opinião a respeito dos registros formal e informal do nosso idioma?

Quando eu era cientista

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Li um trabalho sobre venda, compra e aluguel de imóveis em favelas.

Alguns autores mostram-se surpresos por a violência não ser citada como problema na comunidade ou como causa da venda.

Nenhum desses autores explicitou que é (muito) provável que o vendedor não queira desvalorizar seu imóvel depreciando o entorno. Incrível. 

Alguém imagina um proprietário de uma casa à venda num bairro de classe média, ou mesmo um corretor, informando ao potencial comprador que o motivo da venda é o bairro estar muito violento, com vários assaltos a residências à mão armada?

Por acaso o pessoal da favela seria bobo a esse ponto? Não seria preconceito?

Na minha época de pesquisador, um resultado desses não seria publicado sem a ressalva a esse possível viés, mesmo que no instrumento de pesquisa eu tentasse deixar o entrevistado bem seguro de que as informações não teriam efeito negativo sobre o preço de venda da casa dele.

Revisor-dentista

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Tem cliente que aparece aqui desdentado, com alguns abscessos, uns canais a tratar, com poucos tecidos sadios, enfim, uma boca podre.

Revisor é como ortodentista. Para ajeitar a posição dos dentes, pelo menos é necessário um ambiente minimamente funcional.

Engraççado

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Engraççado!

As mulheres (e agora os homens) e as cirurgias estéticas

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Faz anos que afirmo que a indústria da cirurgia estética acabaria com um procedimento apenas.

Vejo que está para se concretizar minha teoria.

Agora nos Estados Unidos não é moda, é obsessão tirar as gordurinhas dos tornozelos para ser feliz. Portanto, quase se completa o exterior: dos megahair aos dedões, passando pelos calcanhares.

Depois disso, vislumbro a cirurgia definitiva: operar o cérebro!